SOCIEDADE DE GEOGRAFIA DE LISBOA

SECÇÃO DE TRANSPORTES


Ligações à Ota Não Vão Funcionar
Por RUI RODRIGUES
Segunda-feira, 23 de Julho de 200, JORNAL PÚBLICO

A localização na Ota do futuro aeroporto internacional de Lisboa parece, inicialmente, ser um local com bons acessos rodo-ferroviários mas, após um estudo mais cuidado, percebemos que vários problemas muito graves irão ocorrer. Na documentação da NAER é proposta uma ligação ferroviária da Ota à linha do Norte, através de um ramal de 10 Km, partindo de Vila Nova da Rainha (perto do Carregado). A ligação da Gare do Oriente à Ota, numa distância de cerca de 43 Km, seria efectuada em 20 minutos, aproximadamente, por comboios rápidos de elevada frequência.

Esta configuração de linhas tem enormes desvantagens, uma vez que só vai servir convenientemente dois pontos - Ota e Gare do Oriente. As populações da linha de Sintra não utilizarão o comboio uma vez que a sua linha descreve uma trajectória no sentido Oeste-Leste e depois já no interior de Lisboa passa a ter a direcção Sul-Norte. A distância será de tal forma elevada que será muito mais vantajoso o uso do automóvel ou táxi através da CREL. Na linha de Cascais a situação ainda é mais grave. Quem estiver num ponto intermédio entre a Gare do Oriente e Vila Nova da Rainha terá que tomar um comboio regional ou suburbano até Vila Nova da Rainha e daí mudar para outro que o leve até à Ota. Para os passageiros vindos do Norte, o problema é pior, porque o seu número não justificará, normalmente, o funcionamento de comboios de acesso directo ao aeroporto, nem sequer a paragem perto da Ota dos comboios rápidos com destino a Lisboa. Assim, os passageiros partidos de Coimbra, por exemplo, que queiram ir de comboio para o aeroporto da Ota, terão, normalmente, de tomar um comboio rápido para Lisboa e depois voltar para trás num outro para o aeroporto, ou um comboio regional, mais lento, com paragem em Vila Nova da Rainha ou Vila Franca de Xira, para depois dai seguirem para o aeroporto. Mesmo que se desvie a linha do Norte obrigando-a a passar pela Ota o problema não seria resolvido porque a Ota nunca justificará a paragem dos comboios de longo curso vindos do Norte.

Quando se optou pela Ota também foi anunciada a passagem por aquele local de uma futura linha de alta velocidade TGV, sem qualquer estudo prévio, que faria a ligação Lisboa-Porto. Esta linha nunca seria rentável, pois teria um custo de 1000 milhões de contos e só se iriam poupar 30 minutos de viagem relativamente, ao Alfa Pendular, tendo este preços de bilhetes muito mais baixos que o TGV. Mesmo que fosse construída esta linha teria uma frequência de comboios muito reduzida, de 1 hora em 1 hora no máximo, o que não é adequado para quem queira utilizar um aeroporto.

Foi avançada, mais tarde, a ideia da futura linha de comboios de alta velocidade de Lisboa ao Porto se afastar acima de Leiria do traçado da actual linha do Norte para, descendo até às Caldas da Rainha e passando em seguida entre as serras de Aire e de Montejunto, ir passar pelo aeroporto, seguindo depois para Lisboa. Este traçado, que seria de difícil construção devido ao relevo e tipo de solos existentes, iria encarecer substancialmente os custos da linha e não contribuiria para resolver o problema do acesso dos passageiros vindos de Santarém e de todo o interior do país. Não é, além disso, rentável parar comboios TGV nas Caldas da Rainha e noutras estações para levar passageiros para o aeroporto. Esta solução não nos parece, assim, de modo nenhum, indicada.

O acesso ferroviário ao aeroporto da Ota é, assim, um problema de difícil solução e as ligações para quem vem do Norte e Interior do país nunca serão directas e obrigarão à mudança de comboio o que, para além de ser incómodo, aumentará substancialmente o tempo de viagem. Tudo isto acontece porque a Ota não é um ponto que coexista convenientemente com a restante linha férrea.

O transporte rodoviário vai ser outro problema de difícil resolução, uma vez que as duas vias principais a utilizar serão a A1 e a CREL. Apesar dos novos acessos que serão construídos no futuro, A10 e IC11, a maioria dos utentes que são os que se dirigem e partem de Lisboa usarão a A1, do Km zero ao Km 38, que tem um tráfego diário de cerca de 80 mil veículos.

Deslocando o novo aeroporto para a Ota cerca de mais 20 mil veículos irão ser acrescentados ao tráfego actual diário. Convém lembrar, que se um utente for transportado de automóvel por um familiar, tanto na ida como no regresso, serão efectuadas 4 deslocações. Muitos utentes irão perder os aviões devido a engarrafamentos e desastres ou aos atrasos provocados pelos pagamentos das portagens.

A sinistralidade na A1 no troço do Km zero ao Km 38 é um factor muito importante, que deve ser analisado com muita atenção. Nos últimos 5 anos, o número médio anual de acidentes com vítimas é de 173,2 por ano (fonte DGV), sendo 11,6 o número médio de mortos e 38,6 de feridos graves. Esta situação será ainda mais agravada com o futuro aumento de tráfego já referido.

Ao contrário da Ota, verificamos que a Portela se encontra numa posição extremamente privilegiada, por estar a apenas 2 Km da Gare do Oriente.

Analisando com atenção as potencialidades da Gare do Oriente, verificamos que é um ponto estratégico muito importante, com diversos meios de transporte e é a estação onde mais comboios param. Deste ponto partem comboios para quase todo o território nacional.

O transporte de passageiros da Portela à Gare do Oriente pode ser efectuado através da Av. de Berlim (tem pouco tráfego e é uma recta), numa distância de 2 Km, através do uso de 2 autocarros de qualidade, semelhantes aos que se usaram na Expo'98 para transportar, naquele recinto, os visitantes da zona Sul à zona Norte. A distância é muito curta e pode ser efectuada em 3 a 4 minutos por uma via própria de BUS porque esta avenida é muito larga. Este transporte podia ser gratuito e seria só efectuado entre estes dois pontos.

A Portela possui uma multiplicidade de acessos, que poderão ainda ser substancialmente melhorados com obras que já deviam estar acabadas há anos, tais como a CRIL, IC16 e o Eixo Norte-Sul.

As vantagens apresentadas pela localização da Portela no que respeita à sua coexistência com outros meios de transporte, levam-nos a concluir que se deverá pensar em soluções para manter o actual aeroporto, complementando-o com a base aérea do Montijo, uma vez que as ligações rodo-ferroviárias para a Ota serão deficientes pelas razões descritas.


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