Dia
Nacional do Mar

* A Resolução n.º 83/96 do Conselho de Ministros institucionalizou o dia 16 de Novembro como Dia do Mar, data de entrada em vigor em 1994 da Convenção das nações Unidas sobre o Direito do Mar.

 Sociedade de Geografia de Lisboa


Alfredo Magalhães Ramalho,
Pioneiro da Oceanografia  

Evocação  Pública
do
Dr. ALFREDO MAGALHÃES RAMALHO
(1894-1959)
16 de Novembro de 2001

 

 

SOCIEDADES  CIENTÍFICAS

Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais  (1915)

Zoological Society of London, corresponding member  (1933)

Academia das Ciências de Lisboa, sócio correspondente  (1938)

Linnean Society of London, foreign member  (1948)


CONDECORAÇÕES

Légion d'Honneur, chevalier (1934)

King's Medal for Service in the Cause of Freedom (1947)

Mérite Maritime de France, chevalier (1949)


Apoio:

 

VISÃO MODERNA DA OCEANOGRAFIA
ESFORÇO INOVADOR E PIONEIRO
ABORDAGEM CIENTÍFICA DOS PROBLEMAS DAS PESCAS

SENTIDO ÉTICO DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA


A Vida

Alfredo Sobral Mendes de Magalhães Ramalho nasceu no dia 26 de Abril de 1894, em Lamego (freguesia da Sé), de onde eram há várias gerações as famílias de onde provinha.

Devido à carreira como oficial do Estado-Maior, o seu pai vem para Lisboa onde se radica com a família. Aos 10 anos, Magalhães Ramalho entra para o 1º ano do Colégio Militar[1], onde fará os estudos secundários com distinção. Em 1911 entra para a Faculdade de Medicina de Lisboa, cujo curso termina brilhantemente em 1917.

A escolha deste curso fora praticamente uma imposição familiar. Assim, Alfredo Magalhães Ramalho planeia cursar Engenharia, opção que de facto pretendia seguir, mal termine Medicina. Contudo, a implantação da República vem, de algum modo, alterar os seus intentos. O pai, último Governador Civil da monarquia, é passado compulsivamente à reserva, o que leva a que a família atravesse então uma fase de grandes dificuldades económicas, impedindo-o de concretizar o seu sonho. Em 1920, conclui o doutoramento em Medicina com 20 valores. Mas, o desinteresse por esta formatura agrava-se com a sua passagem pelos hospitais civis e militares durante a epidemia de gripe pneumónica de 1918 (apesar de lhe ter sido concedida a medalha da Cruz Vermelha Portuguesa, por serviços distintos). Por outro lado o tempo que passa como assistente do Professor doutor Augusto Celestino da Costa, regente da cadeira de Histologia, leva-o a interessar-se cada vez mais pela Biologia.

Como assistente de Celestino da Costa, desenvolve desde 1915, na Faculdade de Medicina, trabalhos de Histologia e Embriologia sobre órgãos de peixes. Paralelamente, na condição de membro da Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais trabalha como assistente voluntário no Aquário Vasco da Gama. Conjuntamente com Celestino da Costa é responsável pela adaptação do Aquário para funcionar como estação de biologia marítima. Em 1919, quando a Estação de Biologia Marítima de Lisboa é formalmente criada, Magalhães Ramalho é nomeado naturalista assistente.

No ano a seguir, é enviado a França pelo Ministério da Marinha para participar num cruzeiro científico do navio Perche, do Bureau Scientifique des Pêches, e instruir-se sobre as técnicas dos trabalhos oceanográficos. Quando regressa a Lisboa começa os estudos biológicos da sardinha e, porque, entretanto, Portugal aderira ao Conselho Internacional para o Estudo do Mar (CIEM), com sede em Copenhaga, é nomeado perito da delegação nacional junto deste Conselho.

Em 1923, organizados pela Marinha com a colaboração da Estação, iniciam-se os cruzeiros oceanográficos de levantamento geral e sistematizado de toda a
costa do Continente, desde o rio Minho até ao Guadiana, no navio-hidrográfico "Cinco de Outubro" (ex-iate “Amélia IV”), comandado pelo capitão-de-fragata Almeida Carvalho.

Em 1924, mediante concurso, é nomeado naturalista director do Aquário e Estação, em substituição do Professor Celestino da Costa; desloca-se à Noruega para tratar do apetrechamento científico do navio oceanográfico "Albacora", mandado construir pelo Ministério da Marinha, e frequenta em Bergen um curso de oceanografia física organizado pelo reputado Professor Helland Hansen.

Sob sua orientação, o "Albacora", comandado pelo 1.º tenente Luciano Sena Dentinho, vai realizar todos os anos, até 1931, cruzeiros oceanográficos entre o Continente, Madeira e Selvagens, Casablanca, Gibraltar e Canárias, em cooperação com diversas instituições nacionais e estrangeiras.

Da estreita colaboração que se desenvolve entre Alfredo Magalhães Ramalho e o comandante Sena Dentinho decorrem anos de intensa actividade de investigação, cujos resultados ganham reconhecimento nacional e internacional: em 1933, é admitido como membro correspondente da Zoological Society of London e nomeado vogal naturalista da Comissão Central de Pescarias; em 1934, recebe o brevet de chevalier da Légion d'Honneur; em 1936, é-lhe concedida a medalha grand module da Société Centrale d'Agriculture & de Pêche de Paris; em 1938, é nomeado sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e, em 1943, sócio da Linnean Society of London.

Depois de uma fase de relativa estagnação, em que Portugal se retira do CIEM e se dá o desarmamento do "Albacora", a Estação de Biologia Marítima de Lisboa inicia, nos anos 40, uma nova fase da sua actividade com profícua produção técnica de elevada qualidade, designadamente: publicação de catálogos de várias colecções oceanográficas nacionais, estudos sobre o plâncton, a sardinha, o atum, a amêijoa do Algarve, etc.; e, em 1943, o doutor Magalhães Ramalho empenha-se na tradução portuguesa e edição de "O problema da sobrepesca" da autoria do biólogo inglês Dr. E. S. Russel, obra que introduz no nosso País uma visão pioneira sobre a importância da gestão racional dos recursos piscatórios.

Em 1946, é o delegado do Governo português à Conferência Internacional sobre Pescarias em Londres. Em 1947, é nomeado membro da Junta de Investigações Coloniais, recebe a King's Medal for Service in the Cause of Freedom e retoma as funções de delegado português junto do CIEM, para cujo bureau é eleito vice-presidente no ano seguinte. Em 1950, realiza uma importante viagem de estudo aos Estados Unidos da América para observar a Operation Sardine que tentava determinar as causas da crise de escassez da espécie nos mares da Califórnia, sem todavia haver esclarecido as suas causas; a missão de Magalhães Ramalho era de averiguar as possibilidades de se transplantar para o nosso país, e reduzida à nossa escala, a orientação seguida naquela operação.

Em 1951, a Estação autonomiza-se em Instituto de Biologia Marítima, separando-se do Aquário Vasco da Gama. Magalhães Ramalho será o seu primeiro director. Nesse ano, cessa as funções de vice-presidente do CIEM, continuando contudo ligado a esta instituição, sendo eleito, em 1955, presidente do seu Scombiform Fish Committee.

Em Julho de 1957, ao fim de 39 anos de intenso labor científico no campo da Oceanografia e, em particular na Biologia Marinha e na sua aplicação pesqueira, aposenta-se por motivos de saúde.

Em 6 de Novembro de 1959 morre na sua casa em Lisboa, em consequência de um acidente cardíaco.


A Obra

Alfredo Magalhães Ramalho, um espírito lógico e de rigor, mais especulativo que prático, atraído desde cedo pela natureza comparativa da biologia, teve a capacidade de manter uma atitude aberta ao Mundo e atenta a tudo que o rodeava. Uma tal abertura permite-lhe, por esforço próprio, entender o saber oceanográfico numa visão multidisciplinar, pioneira em Portugal, cujo desenvolvimento acompanha de perto por via da cooperação científica internacional que a participação portuguesa no Conselho Internacional para o Estudo do Mar lhe proporciona. A formação em ciências médicas e, mais decisivamente, a sua adesão total ao projecto da estação de biologia marítima, ter-lhe-ão induzido uma percepção holística da vida marinha, por certo arredia da mentalidade portuguesa da época. Uma tal percepção, a par da visão multidisciplinar do estudo do mar, vai prevalecer na longa actividade que Magalhães Ramalho dedicará ao desenvolvimento e aplicação da oceanografia em Portugal, como naturalista e, a partir de 1924, director do Aquário Vasco da Gama e Estação de Biologia Marítima de Lisboa e, mais tarde, do Instituto de Biologia Marítima, além de naturalista vogal da Comissão Central de Pescarias.

A sua acção revela-se multifacetada e tutelar: acompanha desde os primeiros esforços a adaptação do Aquário a Estação de Biologia Marítima e, já como director, vai bater-se com denodo pelo seu apetrechamento indispensável, sempre ridiculamente exíguo em recursos humanos, visando criar um centro moderno capaz de desenvolver e sistematizar as investigações referentes à oceanografia, tanto física como biológica; a necessidade imperiosa de dotar a Estação com uma capacidade autónoma de realização de trabalhos no mar concita o empenhamento de Magalhães Ramalho na aquisição pelo Ministério da Marinha de um navio oceanográfico, o “Albacora”, que, por sua proposta, é uma réplica do Armauer Hansen do Instituto Geofísico de Bergen; organiza e dirige os cruzeiros do “Albacora”, desde 1925 até ao seu desarmamento em 1940, para o estudo sistemático das condições físico-químicas e dos aspectos biológicos das nossas águas costeiras e para o conhecimento da circulação oceânica no estreito de Gibraltar e da água mediterrânica escoada para o Atlântico (1927-1929) e o levantamento das condições oceanográficas na pouco estudada região atlântica contígua, em colaboração com o supracitado Armauer Hansen (1930); inicia a abordagem científica dos problemas das pescas em Portugal, em particular as flutuações das populações da sardinha, espécie economicamente importante, a que desde 1921 dedica o seu interesse com estudos biométricos e biológicos, introduzindo, em 1947, a análise estatística em larga escala das populações, sua constituição e flutuações, que se sistematiza apenas entre 1952 e 1956, quando deveria continuar por mais anos; enceta os primeiros passos de biologia pesqueira com o estudo da variação da produtividade da pesca de arrasto na nossa plataforma continental e na costa da Mauritânia, mediante análise estatística do tempo de esforço de pesca e da quantidade do pescado registados pelos arrastões naqueles pesqueiros entre 1938 e 1955, cuja conclusão indicia sinais de sobrepesca bastante claros.

Na vasta obra de Alfredo Magalhães Ramalho importa evidenciar a inovação, a cultura de mar e o sentido ético da investigação científica. O espírito analítico do naturalista marinho interiorizou a índole quantitativa da oceanografia física e, mais tarde, a análise estatística, conferindo-lhe o discernimento multidisciplinar dos fenómenos oceânicos, patente em estudos e iniciativas inovadores para a época e precursores de esforços de investigação ulteriores: o reconhecimento sistemático das condições físico-químicas das nossas águas oceânicas com interesse provável para a biologia das espécies ictiológicas costeiras mais capturadas (desde 1925); os estudos de plâncton (Alberto Candeias, 1925-1930 e 1952); a identificação na plataforma continental portuguesa, no verão, de águas costeiras com características diversas das águas ao largo e a distinção na mesma plataforma de três áreas com condições oceanográficas diferentes (Magalhães Ramalho e Sena Dentinho, 1928); a hipótese sobre a influência da topografia acidentada e irregular daquela plataforma nos fenómenos oceanográficos, sobretudo nos de ordem dinâmica (1931); a primeira indicação do afloramento costeiro ser a causa da supracitada diferenciação das águas no verão (Rodrigo Boto, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 1940); o estudo da água mediterrânica que se escoa para o Atlântico (Magalhães Ramalho e Sena Dentinho, 1927-1930 e 1933-1940); os estudos biológicos da sardinha (Magalhães Ramalho, desde 1921, Mário Ruivo, 1950, Jaime Pinto, 1947-1948, e Machado Cruz, da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, desde 1951), dos atuns (Fernando Frade, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 1924-1947), dos crustáceos (Herculano Vilela, 1936), da amêijoa (Herculano Vilela, 1941-1950) e das pescadas (Pedro da Franca, 1951); a abordagem científica aos problemas das pescas, em especial de arrasto, tendo por referência a obra do Dr. E. S. Russel, traduzida em língua portuguesa sob o título “O Problema da Sobrepesca” e editada em 1943 pela Estação de Biologia Marítima; a análise estatística aplicada às pescas (Tiago de Oliveira, 1951).

Um elemento essencial da investigação oceanográfica é realização de trabalhos no mar para colheita de dados e observações, os quais decorrem usualmente em condições ambientais adversas, por vezes insuperáveis, de alguma perigosidade e com elevado desgaste físico e psíquico. O grupo embarcado reage a essas condições com estreitamento de laços de solidariedade, acrescido respeito mútuo e maior partilha da missão, fortalecendo a sua coesão num processo de socialização conhecido por escola de mar. Ora, o navio oceanográfico “Albacora”, além de conferir à Estação de Biologia Marítima uma capacidade autónoma de realização de trabalhos oceanográficos, foi a sua escola de mar, instrumento essencial à criação de uma cultura científica verdadeiramente orientada para o seu estudo. Em 1940, na altura do seu desarmamento, a bordo do “Albacora” tinham-se realizado 1 400 estações oceanográficas em cruzeiros sempre organizados e dirigidos por Magalhães Ramalho com a colaboração, no mar e em terra, nas rotinas de laboratório e elaboração de dados, dos seus comandantes e dos assistentes e preparadores da Estação. Uma citação particular é devida ao 1.º tenente Luciano Sena Dentinho, comandante do “Albacora” entre 1926 e 1934, a cujo entusiasmo e grande interesse se deve a realização dos cruzeiros no golfo de Cádiz e estreito de Gibraltar, cujos resultados mereceram destaque da comunidade oceanográfica internacional. Sem um navio oceanográfico, gora-se o sonho de Magalhães Ramalho de criar um centro moderno capaz de desenvolver e sistematizar as investigações referentes à oceanografia, tanto física como biológica, e perde-se o acervo por ele pacientemente construído de uma cultura científica do mar.

O estudo da sardinha é para Magalhães Ramalho o projecto científico da sua vida, em que se empenha desde 1921 e cujo comportamento o deixa intrigado; ao introduzir, em 1947, a análise estatística em larga escala das populações da sardinha, sua constituição e flutuações, que se sistematiza apenas entre 1952 e 1956, está consciente que os resultados serão precários, devido à exiguidade de recursos disponíveis para obter mais dados e à impossibilidade de caracterização das condições ambientais relacionáveis temporalmente com o estado daquelas populações. Importa atentar no sentido ecológico que uma tal inquietação revela, em coerência, aliás, com a sua visão multidisciplinar do estudo do mar. No entanto, apesar dos promissores resultados obtidos, Magalhães Ramalho não os considera, em 1956, ainda suficientes para iniciar a sua análise conclusiva. Nesse ano, a sua já abalada saúde leva-o a terminar a actividade científica. A vasta investigação que organizou para o estudo das flutuações das populações da sardinha em Portugal ficava, na sua opinião, incompleta. Em carta dirigida a pessoa amiga, em Novembro de 1956, Magalhães Ramalho mantinha, sem amargura, que:

“Só resta persistir no estudo, na esperança vaga de que com mais anos de observação sistemática se chegue a descobrir a solução para este e outros problemas importantes. O estudo das realidades naturais é uma grande escola de modéstia.”

Uma tal atitude já transparecia, sem ambiguidade, na memória que apresentou ao I Congresso Nacional de Pescas e Conservas, realizado em Setúbal, em 1927:

“(...) Há quem julgue que a ciência é infinita no seu poder de conjurar os achaques que por muitas formas afligem a humanidade e que, portanto, quando aplicada ao estudo dos problemas das pescas, imediatamente verá tudo, desvendará todos os mistérios. Nem sempre assim sucede, e no mar menos que noutros domínios. Nem crença desmedida nas vantagens que podem advir do estudo científico dos problemas, nem descrença absoluta no seu poder. Confiança, esperança sim, na ciência cultivada com honestidade e cautela, ainda que com modéstia”.

De Alberto Candeias, seu antigo colaborador e biógrafo atento, buscamos nas palavras em que traça indelevelmente o elevado sentido ético do Homem o epílogo sublime:

 “(...) aos seus escrúpulos de cientista não agradavam as conclusões apressadas, e nada o induziria a pôr de parte, a pretexto fosse do que fosse, a sua prudência, as suas moderação e ponderação científicas.”

Alfredo Magalhães Ramalho acalentou o sonho da investigação oceanográfica em Portugal e, como diz o poeta António Gedeão, a quimera comandou-lhe a vida. Homenageá-lo, hoje, é perdurar a memória do Homem, reconhecer a Obra e retomar o Sonho.

Referências:

Candeias, Alberto  “Doutor Alfredo Ramalho – Esboço Biográfico”, Instituto de Biologia Marítima, Lisboa, 1960, pp. 24.

Ramalho, Alfredo  “Relatório do Director do Instituto de Biologia Marítima”, 30 de Dezembro de 1952, pp. 21.


[1] Admitido em 1904 com o n.º 37, é condiscípulo de individualidades ilustres como o futuro Marechal Francisco Higino Craveiro Lopes.

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Novembro 2001